Uma busca qualquer em um dia qualquer

Retratos da vida com os buscadores, essa nova espécie de sites tão singela e poderosa que nasceu junto com a web comercial e se tornou dona dela.

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Wednesday, October 18, 2006

Máquinas do silêncio e filtragem "do barulho" (Parte II)
Dizíamos, na primeira parte, que eram necessárias duas condições para que um buscador pudesse exercer uma censura nos resultados. Já averiguamos como é fácil identificar a origem do usuário. Agora, resta saber se é difícil monitorar as palavras chaves pesquisadas por cada usuário.

A verificação desse segundo ponto é ainda mais óbvia que a do primeiro. Basta pesquisar uma palavra do gênero "carros usados" na Ooooo e observar a coluna links patrocinados no lado direito da janela de resultados. Esses anúncios - serviço de publicidade vendido pela Ooooo - são exibidos em função das palavras chaves digitadas pelos usuários.

Portanto não resta a menor dúvida que já existia ali, prontinha, toda a parafernália para se filtrar informações sob medida para cada usuário, cruzando os dados do país ou localidade de origem, e as palavras chaves procuradas.

A censura aplicada aos chineses mostrou que era extremamente fácil desviar a tecnologia genérica dos buscadores para finalidades de interesse público no mínimo muito menores que a publicidade na Internet.

A tecnologia dos buscadores parece com a do nuclear. É difícil dizer se o uso vai ser civil ou militar. A diferença, no nosso caso, é que a transformação em arma é imediata.

Wednesday, May 24, 2006

Jornal do SBT da Ana Paula Padrão a 24.05.2006, 20h30:
"ooooorcuti aceita fechar paginas ligadas ao ppc".
É, só mesmo a TV para falar do assunto.

Thursday, May 18, 2006

O PCC na onda da Ooooo
A folha parece ter sido a única mídia escrita a repercutir uma notícia dada no dia 17/05/2006 pela tv (Globo e/ou Band), em artigo intitulado "O acordo e os mortos", também de 17/05/2006.
Segundo a tevê, a ooooo teria recusado, em nome do segredo comercial, comunicar à polícia dados relativos ao uso do Ooooorcuti (que pertence à oooooo) pelo pcc para troca de informações.
Dia 16, o estadão já tinha citado em um mesmo artigo ambas a comunidade virtual e o pcc, mas era para falar da criação de uma
comunidade em memória a policiais vítimas da onda de ataques do comando.

Wednesday, May 03, 2006

A nova censura: máquinas do silêncio e filtragem "do barulho" (Parte I)

Nota prévia: Foi em conversa com um amigo ontem (aquele mesmo que suscitou a postagem sobre o JB) que pude colocar o dedo na dúvida crucial do assunto em pauta, quando ele questionou meu uso da palavra censura para me referir ao sumiço de resultados nos buscadores. De fato, trata-se aqui de uma redefinição da palavra censura, ou pelo menos de uma definição da censura eletrônica.


Poderosíssimas para encontrar rapidamente informações em gigantescas massas de textos, as mákinas de busca também abrem possibilidades inéditas de censura.
Após ler o que segue, talvez partilhem a opinião de que a periculosidade da nova censura é devida, acima de tudo, à dificuldade de caracterizá-la como sendo censura.

Vamos partir do artigo ooooo's China Problem (designamos por "ooooo" aquele buscador muito popular - vocês já adivinharam qual) publicado no New York Times (http://www.nyt.com) para tentar descrever e compreender mais detalhadamente o novo tipo de ameaça à liberdade.
Esse artigo afirma que quem usa, na China, a ooooo para pesquisar palavras chaves inconvenientes para o governo chinês, do tipo "massacre de TienAnmen", não encontra os mesmos resultados que se estivesse acessando o ooooo de outro país do mundo. O New York Times afirma que entre os resultados "não encontrados" por quem usa o ooooo na China, estão os sites que expressam uma opinião política contrária à do governo chinês.

Primeira pergunta: gente, mas não será impossível, ou então muito difícil, exercer tal censura?
Resposta: não só é possível como é facílimo, como explico a seguir.
Basta reunir duas condições, acessíveis ao simples bom senso, para tornar possível essa censura contra os usuários chineses da ooooo:
a) Saber em que país o usuário se encontra.
b) Saber uma por uma cada palavra pesquisada por cada usuário
Respeito à primeira condição, não é preciso ser nenhum grande especialista para afirmar que a ooooo, como aliás qualquer site que visitamos, possa saber em que país cada um dos usuários se encontra.
Explicando em termos um pouquinho mais técnicos, todo mundo na Internet, desde o maior site até o mais simples internauta, possui um tal de endereço IP, que é atribuído em função de regras públicas, e precisas, uma delas sendo o país. Qualquer site que visitamos sabe nosso endereço IP, do contrário nem saberia aliás para quem mandar as páginas que nosso browser exibe, por exemplo, cada vez que clicamos em um link. Portanto, qualquer site que visitamos pode automaticamente pegar nosso IP e, consultando uma documentação de acesso público, deduzir o país de origem do usuário.
Agora que esclarecemos a condição a), que mostra como a ooooo pode facilmente saber se tal um usuário é chinês, resta imaginar como ela vai filtrar -censurar?- seus resultados.
Mas isso fica para a parte II, a surgir em breve nesse blog.

Tuesday, May 02, 2006

JB ONLINE : reflexão sobre a nova interface

Contexto: na semana passada, o JB online surgiu com uma interface radicalmente diferente, que procura ser a simulação mais perfeita possível da versão papel. A justificação da nova interface, segundo o próprio JB, seria que "programas de computador maldosos" diminuem a qualidade do serviço.

Um amigo me enviou hoje um e-mail perguntando o que eu achava dessa nova apresentação e resolvi colocar aqui minha resposta.

Quais serão as conseqüências dessa nova interface?
Essa medida que o próprio JB apresenta como uma proteção pode, na realidade, acabar tirando o jornal da corrida à informação da forma como ela é produzida atualmente: o jornal vai deixar paulatinamente de ser citado.
É interessante ver como se inscreve essa nova posição do JB em relação aos pesos pesados da imprensa nacional online.
Atualmente, quem chega em primeiro lugar, é o estadão, que deverá consolidar sua liderança nacional, com seu site extremamente robusto, totalmente aberto e profissional. Nota-se que o estadão é o único dos grandes que NÃO está integrado a um portal de fornecedor de acesso (Terra, UOL, etc), o que denota uma personalidade muito forte e independente.
No Rio, é o site da Globo que vai sair lucrando. O portal deverá acabar de consolidar sua liderança absoluta, inclusive porque a marca Globo também concentra seus próprios portal e fornecedor de acesso.

Leio o JB online desde 1995, foi um dos primeiros grandes periódicos no mundo a ter um site excelente, sem falha de design, de estrutura, desde o início, estrutura original aliás que praticamente se manteve até hoje. Um site feito com inteligência e lógica autênticas. Mas desde que foi integrado ao portal do terra, na minha opinião, o site do JB online veio decaindo, perdendo muito de sua identidade. O portal que o cerca pertence a uma multinacional, que oferece, aliás, várias outras fontes de informação que eu considero concorrentes, tanto em termos de tipo de mídia que de conteúdo.
O site do JB poderia ser contraposto ao da Folha online que, apesar de ter sido integrado à UOL, conseguiu manter uma identidade forte, com muito conteúdo, traduções de artigos de grandes títulos da imprensa internacional, etc. A folha optou pelo serviço pago, sim, mas de alta qualidade e diversidade.

Tudo isso me leva a pensar que nova interface do JB está totalmente na contramão e confirma que apesar do JB ter sido líder da imprensa nacional online, hoje não está conseguindo encontrar seu lugar no espaço da informação eletrônica.
A meu ver, a opção do JB pela versão igual ao papel contém no mínimo um erro muito óbvio: criar uma concorrência DIRETA entre a versão papel "verdadeira" e a versão papel online.
Com certeza não serei o único a ter essa opinião; e que isso vai no mínimo piorar a situação da versão online, vai, embora haveria que saber se trouxe algum impacto positivo para a versão papel "verdadeira".
Vejamos como esse risco de concorrência interna foi administrado pelos concorrentes, a Globo por exemplo. Esta demonstrou uma saudável prudência, optando pelo compromisso, oferecendo no seu portal ambos o "Globo online" e a "versão papel", réplica da versão impressa. Essa última, tecnologicamente moderada, usa, o formato PDF, que é "universal", "baixável" e "reutilizável".
Contudo, o mais grave para o JB é que, em nome da preservação de seu conteúdo, condena qualquer reutilização de seus artigos online. A conseqüência é que, para ser citado, o JB exige agora do usuário o demorado e jurássico esforço da digitação manual do texto, com os prováveis erros que isso envolve; o clipping do JB não pode mais ser feito de forma eletrônica, então seu uso vai começar a custar mais caro que os outros, que já estão com mais peso. Dependendo do assunto, outros jornais cariocas online (penso no Jornal do Commercio) vão acabar ocupando o lugar.

Somados ao problema primeiro e mais óbvio da interface - a exigência de uma conexão e PC rapidíssimos, caríssimos!- , todos esses fatores vão atrasar e reduzir a circulação do conteúdo do JB online.

Conclusão
O que mais choca nessa nova interface do JB online é a recusa de que a diferença entre a versão eletrônica e papel de uma publicação não está no conteúdo, mas na forma de o percorrer. Ela exclui seu conteúdo daquilo que está fundamentalmente em jogo na escrita eletrônica, e que é específico dela: poder ser percorrida, "manuseada", filtrada, in fine lida, por robôs , ou seja, pelos buscadores que hoje regem a massa da informação na Internet...

Monday, May 01, 2006

Os bucadores, máquinas do silêncio?

São quase três anos de silêncio entre hoje e meu primeiro post no blogger.com.
Porque tanto silêncio? Porque relativamente ao assunto que mais me empolga, sobre o qual mais quero escrever, as mákinas de busca, não sei porquê, cisma minha, mas tenho medo de falar, alías sei sim a razão desse medo, é óbvia: é de tanto que as mákinas de busca se tornaram poderosas, de tanto que se confirmaram meus temores a respeito delas quando comecei realmente a estudá-las em 1997.

Contexto: as relações comerciais entre a China e os Estados Unidos, no que diz respeito às empresas de Tecnologia da Informação, trouxeram à baila questões verdadeiramente políticas das quais as start-ups da Silicon Valley permaneciam isentas até então.

Falo porque finalmente a censura e manipulação de informação exercida pelas mákinas de busca acabou sendo revelada ao grande público ao ser confirmada a cumplicidade entre a censura oficial chinesa e a empresa que designarei daqui para frente por "ooooo" (acho que todo mundo já adivinhou de que buscador se trata), em particular.

O New York Times (http://www.nyt.com), em um notável e longo artigo datado do 23 de Abril de 2006, intitulado ooooo's China Problem, trata de forma exaustiva das relações entre o governo chinês e a tal empresa, dando provas diversas de que os resultados de uma busca, na ooooo, em cima de palavras-chave idênticas, mudam conforme o país de onde se faz a busca.
Significa, por exemplo, que os sites encontrados ao buscar as palavras "massacre de TienAnmen" são completamente diferentes se a busca se faz a partir da China ou dos Estados Unidos.
Segundo o artigo, se o usuário estiver na China, não encontrará nenhum dos inúmeros fóruns de discussão, páginas de ativistas, opositores ao regime chinês, etc, que aparecem ao fazer a busca desde os EUA.

Bem, esse artigo foi publicado pelo New York Times, mas o que dizem a esse respeito as revistas de tecnologia?

Vamos até o site da mais conceituada revista de tecnologia digital, a wired (http://www.wired.com). Vou digitar, na data de hoje, as palavras "ooooo China" (sem aspas e substituindo ooooo pelo nome verdadeiro) no buscador interno da wired. Convido cada um dos leitores a fazer esse teste comigo.
Resultado? Adivinhem? Argh!...
Nenhum artigo que contenha de fato ambas as 2 palavras, apenas os artigos Can Techie Oust Orrin Hatch? e Ultimate Guide to Online Video?, que de fato contêm ooooo mas não contêm “China”!!! Absurdo, ilógico! Muito, muito estranho mesmo!!!
Agora busco, sempre no buscador interno da wired, "ooooo censorship". Acho nos primeiros lugares os mesmos artigos já encontrados, e nenhum dos outros resultados que ficam láaaaaaaaa em baixo da página contém ao mesmo tempo uma e outra palavra. Agora olhem só, eu mesmo fico arrepiado!!!
Procurem a palavra "censorship"
(censura, em inglês) sozinha, e aí sim, encontramos o que nos interessa, em 7º lugar:
1) Gates and Hu: Feel the Love
2) Group: Yahoo Helped China, Again
e finalmente:
7) ooooo
Spells Censorship in China
(Refazendo a busca no wired para re-conferir o que estou escrevendo, acabo de descobrir que Spells Censorship in China já pulou para o 9º lugar. Mero acaso?)

Gente, será paranóia minha? Mas que karma! Então porque o artigo
ooooo Spells Censorship in China não sai primeiro nem ao digitar "oooo China" nem "oooo censorship"????
Porque isso??!!!
Calma, calma, vamos averiguar. Poderá ser problema técnico do buscador porque seriam buscadas apenas as ocorrências exatas de "ooooo" seguido de "China"??? Resposta: Não! Para tirar a dúvida, busque "gates china" (sem as aspas), da mesma forma que busquei "ooooo China" (sempre sem aspas). Encontramos, logicamente, o artigo Gates and Hu: Feel the Love que chega em 1º lugar ao buscar "censorship" (lembre-se que a Microsoft é a rival nº1 da ooooo).
Qual seria a explicação para a Wired deixar seu buscador encontrar os artigos que contenham as palavras (Bill) “Gates” e “censura” e não aqueles que contêm as palavras “ooooo” e “censura”? Talvez o fato de a oooooo ser um anunciador importante para a Wired. Para verificar isso, basta entrar no webzine (http://www.wired.com) e ir até o fim da página principal. O que vemos? "Ads by ooooo".
Pessoalmente, acho isso assustador, ainda mais quando se sabe que a ooooo já se tornou o principal anunciador em toda a Internet.
Repararam, também, que o próprio site onde hospedo esse blog é da ooooo (acabo de me lembrar que a ooooo comprou o blogger.com. Porque será?)
Agora, se já no buscador interno de uma das revistas digitais mais sérias o negócio já tomou essasproporções, então imaginem na própria ... Oooooooooo!!!!